sábado, 8 de maio de 2021

Tinturas Astrais


1. Em nosso trabalho de transmutação metálica, temos que elaborar tinturas astrais para trabalhar na Grande Obra.


2. Quatro partes de água metálica e duas partes de terra de sol vermelho constituem a tintura-mãe da alquimia.


3. Põe-se tudo em um recipiente, se solidifica e se desagrega três vezes.


4. Essa é a tintura-mãe da alquimia porque com essa tintura elaboramos todas as sete tinturas da alquimia sexual.


5. A água metálica é o sêmen; a terra de sol vermelho são os nossos órgãos sexuais e o sol de enxofre é o Kundalini que temos de despertar praticando Magia Sexual com a esposa.


6. Logicamente temos de solidificar três vezes, uma vez que somos um trio de corpo, alma e espírito.


7. Com uma onça uma medida de tintura de sol podemos tingir de sol mil onças.


8. Com uma onça de tintura de mercúrio podemos tingir o corpo de mercúrio, etc.


9. Com a tintura lunar podemos transmutar o corpo vital em metal perfeito.


10. Com a tintura de mercúrio podemos transmutar em metal de perfeição o nosso corpo búddhico.


11. Com a tintura de Vênus podemos transmutar nosso veículo da vontade em corpo de perfeição.


12. Com a tintura solar podemos transmutar em metal perfeito nosso corpo astral ou Crestos Cósmico.


13. Com a tintura de Saturno podemos transmutar em metal perfeito nosso corpo mental.


14. Com a tintura de Marte transmutamos em metal de perfeição a Alma-Consciência do nosso corpo físico e damos a todos os nossos metais a fortaleza do ferro.


15. Porém a tintura de ouro nos unirá com o Uno, com a Lei, com o Pai.


16. Nossos sete corpos estão influenciados por sete planetas.


17. Nossas sete serpentes sintetizam toda a sabedoria dos sete Cosmocratores.


18. Cada um dos nossos sete corpos deve sintetizar toda a perfeição de cada um dos sete Cosmocratores.


19. Temos de trabalhar com a nossa bendita pedra na retorta de nosso laboratório sexual até obter a Fênix dos filósofos.


20. Eis como nós, depois de termos morrido, ressuscitamos como a ave Fênix da filosofia.


21. Cada um de nós, no fundo, é uma estrela. Depois de termos trabalhado com as tinturas astrais até transmutar todos os nossos sete corpos em veículos de perfeição, regressamos ao seio do Pai.


22. Os sete seres ordenadores, os sete Logos Planetários do nosso sistema solar, no amanhecer da vida se expandiram como se expandem as chamas, e de sua expansão resultaram milhões de partículas divinas evoluindo através do Mahanvantara.


23. Cada partícula divina deve se realizar como Mestre de transmutações metálicas e voltar ao Pai.


24. Toda chispa tem de regressar à chama de onde saiu, porém conservando sua individualidade.


25. O Livro dos Mortos diz: “Olha, o Deus de um rosto está comigo. Salve, ó sete seres ordenadores, que sustentais a balança na noite do juízo do Utchat, que decapitais e degolais, que com violência vos apoderais dos corações e rasgais os peitos, que perpetrais matanças no Lago de Fogo, vos conheço e sei vossos nomes. Avanço até vós, portanto, avançai para mim! Pois viveis em mim e viverei em vós. Dai-me vigor com o que tendes em vossas mãos, isto é, com o bastão de mando que vossas destras empunham. Ordenai vida para mim com vossas frases, ano após ano, conferi-me miríades de anos sobre meus anos de existência, multidões de meses de existências e inúmeras noites sobre minhas noites de existência. Concedei-me que surja e brilhe em minha estátua, ar para meu nariz e poder para minhas pupilas a fim de que vejam os seres divinos que moram no horizonte, o dia do cômputo equitativo dos pecados e da maldade (Capítulo LXXVIII)”.


26. O Deus de um Rosto que está em nós é o Íntimo.


27. Os sete ordenadores sustentam a balança do juízo, decapitam e degolam os alquimistas para realizá-los como Mestres de transmutações metálicas.


28. Cada vez que uma das nossas sete serpentes sobe das vértebras do pescoço à cabeça, passamos pelo simbólico degolamento de João Batista.


29. Os sete Gênios planetários se apoderam dos corações rasgam os peitos para libertar as almas do submundo e para levá-las ao lugar da luz.


30. Os sete Logos perpetram matanças no Lago de Fogo.


31. Há que se morrer para viver. Há que se morrer para o imundo para se viver para o Pai. No magistério do fogo morremos e ressuscitamos como a Ave Fênix da Alquimia Sexual.


32. Os Deuses imortais nos dão vigor com o bastão de mando que empunham em sua destra.


33. Esse bastão é a nossa coluna espinhal, a nossa vara de bambu com sete nós, por onde sobem as sete ardentes cobras.


34. Com os Elixires Branco e Vermelho adquirimos o Elixir da Longa Vida e ainda que estejamos encarnados em nossa estátua, isto é, em nosso corpo físico, os mundos internos se abrem e podemos ver a esses jovens seres divinos que moram no horizonte e que levam os livros das contas do mundo.


35. Com as tinturas astrais voltamos ao seio do Pai a ouvir palavras inefáveis.


36. Todo o poder está encerrado na sabedoria da serpente.


37. O Livro dos Mortos diz o seguinte: “Sou a serpente Sat, dilatada em anos. Faleço e nasço a cada dia. Sou a Serpente Sat que mora nos confins da Terra. Morro, renasço, me renovo e chego à juventude todos os dias”. (Capítulo de metamorfosear-se na serpente Sat).


38. A tintura lunar é de cor violácea. A tintura de mercúrio é amarela. A tintura de Vênus é cor de anil. A tintura solar, dourada e de um azul intenso. A tintura de Marte é vermelha. A tintura de Júpiter é azul e púrpura. A tintura de Saturno é verde, cinza e negra.


39. O alquimista tem de elaborar as sete tinturas para transmutar todos seus metais.


Invocação - Qayin Mortífier



Eu invoco o espírito do poderoso esqueleto 
Eu invoco a morte canhota 
Salve senhor da morte 
Hail ao senhor da morte 
Eu invoco aquele que ara os campos de ossos 
Eu convoco aquele que rega a morte acre com o sangue dos vivos 
Salve qayin mortífier 
Hail qayin o portador da morte 
Eu invoco o mestre de todos os cemitérios 
Eu invoco aquele que traz morte aos vivos 
E a vida aos mortos salve senhor dos cemitérios 
Hail ao senhor da foice sangrenta 
Eu invoco o rei de golgota 
Eu invoco aquele que atravessa a vida com os poderes libertadores da morte 
Salve o senhor da cruz negra 
Hail ao senhor da cruz negra

A Historia da Goecia

 


De forma geral, todos os conceitos reunidos na demonologia ao longo do tempo influenciaram de alguma forma o surgimento da Goécia enquanto prática mágica cerimonial, e os grimórios que tratam de demônios, como o Ars Goetia, já surgem em um período de grande influência cristã.

DEMONIZAÇÃO

Para os cristãos, a magia dos outros povos era arte do demônio, e os deuses dos outros povos foram considerados como demônios. Algumas cerimônias de batismo incluíam a renúncia aos deuses pagãos que o fiel seguia anteriormente, descrevendo-os como deuses falsos do inferno. Em uma abjuração batismal germânica, lê-se por exemplo “eu renuncio às obras e às palavras do demônio, e a Thor e a Odin e a Saxnot, e a todos os seres maléficos em sua companhia”.

Junto com os relatos de abjuração a falsos deuses, surgiram nos anos 1500 muitos grimórios de magia divina. Os objetivos dos feitiços descritos nestes grimórios eram idênticos aos do grimório de uma bruxa, com a ligeira diferença de usarem sempre caracteres hebraicos, palavras em latim e símbolos divinos permitidos pela igreja, como cruzes (principalmente a de Amalfi ou de Malta). O poder de Deus era usado para os mesmos objetivos antes delegados a outros deuses, daemons e demônios. A profusão de intelectuais que publicavam livros neste sentido só não foi maior que a profusão de rituais que surgiram no meio do povo. A magia folclórica era, muitas vezes, atribuída a Santos, para que pudesse ser aceita pela igreja.

Autor importante da época, Cornelius Agrippa foi um mestre de filosofia e magia que escreveu em 1510 um livro importante para a história do ocultismo, chamado De Occulta Philosophia. Neste livro, Agrippa descreve métodos de Magia Natural e Magia Celestial, que seriam muito superiores à dita Magia Negra, Nigromancia ou Necromancia. Os métodos descritos utilizavam a ajuda de Deus para causar amor e ódio, fazer chover ou trovejar, confundir exércitos e descobrir ladrões. Porém, após alguns anos sem conseguir obter êxito em suas práticas, Agrippa escreveu em 1526 a “Proposição sobre a Incerteza e a Vaidade das Ciências e Artes”, onde afirmava não acreditar mais em magia, somente na Palavra de Deus.

O demônio continuou sendo “enganado” pela sagacidade humana, como nos antigos contos, mas agora em um arcabouço ritualístico auxiliado pelos poderes de Deus. Alguns soldados engoliam papéis onde tinham escrito “Diabo me ajude, a ti dou meu corpo e alma” para que pudessem ficar à prova de balas, e outras pessoas faziam oferendas a demônios em encruzilhadas. A realização de pactos só era frequente porque havia a crença popular de que, no momento em que o demônio viesse buscar sua parte, a alma poderia ser salva por Jesus ou Nossa Senhora, ou uma Remissão de Pecados feita por padres no leito de morte.

Além dos pactos realizados de propósito, que usavam o poder de Deus como forma de lhes conferir aceitação da igreja, outros pactos foram forjados pela própria igreja com o simples intuito de perseguir seus inimigos. Este é o caso de Urban Grandier, um padre acusado de molestar freiras em um convento projetando-se astralmente em seus aposentos nos anos 1600. No julgamento, foi apresentado um contrato supostamente escrito (de forma espelhada) por Grandier, assinado por seis demônios e autenticado por BaalBerith, secretário do inferno.

ARS GOETIA

É exatamente neste cenário com profusão de ideias e mescla de conceitos que nasce o Lemegeton. No que toca especificamente ao livro Ars Goetia (compilado com a forma e o nome atuais), este seria um grimório que ensina ao magista como usar a autoridade do Deus Cristão para comandar os deuses de outras culturas. Estes deuses, por sua vez, são chamados no livro de deuses menores, Daemons ou demônios.

As primeiras citações ao Ars Goetia e outros livros do Lemegeton de que se tem notícia são dos anos 1310 (por Pedro de Albano) e 1508 (por Trithemius), e mesmo que as invocações sejam antigas os demônios descritos podem ter sido alterados em anos posteriores. Outros traços da Goécia se encontram em manuscritos dos reinados de Eduardo IV (1461–1483), Henrique VII (1485–1509) e da Rainha Elizabeth I (1558–1603), auxiliada por John Dee. Os 72 demônios da Goécia em si começam a ser encontrados no Livro de Abramelin (1427) e no Libre des Espritz (1400), além do Codex Latinus Monacensis (1500). Versões completas do Lemegeton como o conhecemos hoje só começaram a ser encontradas nos anos 1500 nas bibliotecas de Trithemius, e contribuíram para sua obra Steganographia, de 1508. Outros livros que citam os espíritos e métodos da Goécia são, por exemplo, os Três Livros de Filosofia Oculta e o Quarto Livro de Filosofia Oculta, de Agrippa (1486–1533), além do Praestigiis Daemonum e Pseudomonarchia Daemonum de Weyer (1515–1588).

LIVROS E GRIMÓRIOS

Em 1597, Reginald Scot teve um de seus livros, A Descoberta da Magia, refutado pelo livro Daemonologie do Rei James I, sendo perseguido por tentar dar uma roupagem menos maléfica aos Daemons e à bruxaria.

Outro fato importante neste sentido foi que em 1818, na França, o demonologista Jacques Auguste Simon Collin de Plancy publicou o seu Dictionnaire Infernal, contendo a descrição de 69 entidades e outras informações sobre magia e ocultismo. O autor se converteu ao cristianismo, e em 1863 foi lançada a sexta edição do Dictionnaire, com descrições mais pejorativas sobre cada entidade, e denominando-as de demônios.

Este livro conta com diversas ilustrações, muitas delas com caráter vexatório, que acabaram se tornando as imagens pelas quais estas entidades são mais conhecidas atualmente. Estes fatos podem ter influenciado fortemente na transformação dos espíritos em demônios, além de conferirem a roupagem cristã encontrada hoje no Lemegeton como um todo.

ALEISTER CROWLEY E OUTROS

Ao longo dos tempos, Blaise de Vignère (1523–1596), Dr John Dee (1527–1608), Elias Ashmole (1617–1692), Ebenezer Sibley (1752–1799), Frederick Hockley (1808–1885), Henry Dawson Lea (1843), MacGregor Mathers (1854–1918) e Aleister Crowley (1875–1947) foram alguns dos ocultistas que fizeram cópias e traduções dos grimórios, permitindo que fossem conhecidos nos dias atuais.

Portanto, é de se esperar grande influência das noções religiosas e mágicas que prevaleciam na época sobre as práticas descritas nos livros. Dentre os conceitos importantes, destaca-se que a magia divina seria distinta da magia negra, pois os nomes de Deus supostamente conferem validação e ampliam o poder e a importância das práticas. Os demônios poderiam prover favores aos humanos, e a sagacidade humana seria capaz de minimizar o preço a ser pago. Entre estes favores, encontram-se alguns relacionados a forças da natureza, a aspectos psicológicos, a guerras, tentações e doenças. Os nomes de Deus também teriam um papel importante para prover os resultados, ou obrigar os demônios a cooperarem. Além disso, os simbolismos de escrita divina, entre eles formas geométricas, signos astrológicos e cruzes, têm importante papel no desenho dos selos, para canalização das energias.


A Historia dos Anjos

 


Ao longo da história, os conceitos de “bem”, “mal”, “deuses”, “anjos” e “demônios” muito se modificaram, variando entre regiões, culturas e vertentes mágicas, religiosas e científicas.

De forma geral, todos estes conceitos ao influenciaram de alguma forma o surgimento da Angeologia enquanto prática mágica cerimonial, e os grimórios que tratam de anjos, como os Cinco Livros de Mistério, já surgem em um período de grande influência cristã.

INTERMEDIÁRIOS ENTRE A TERRA E O CÉU

Os anjos teriam um papel importante como intermediários entre deuses e seres humanos, sendo seus mensageiros, mas também exercendo tarefas importantes na manutenção da Ordem e no funcionamento do Universo. Podem ir e vir entre os planos, trazem mensagens importantes aos profetas, levam profetas para verem os céus quando necessário, e guardam as entradas para os planos superiores e seus mistérios.

Como é de se esperar, em mitologias onde os deuses interagem diretamente com os seres humanos (ou onde os deuses são de fatos reis encarnados na Terra), encontram-se menos entidades com papeis similares aos de anjos; por outro lado, em cosmologias com maior distanciamento entre deuses e humanos, os seres similares a anjos têm atuação deveras importante, e são responsáveis por este contato divino. Muitas vezes os mensageiros falam como seu próprio mandante, e estão ali realmente representando o emissor da mensagem, sendo tratados como o próprio deus que os enviou, ou podem ficar encarregados de guardar os portais, e não se chega ao deus sem passar por eles.

GOLFO DA GUINÉ

No continente africano, onde a humanidade surgiu segundo a maioria das teorias científicas atualmente aceitas, não há vertentes locais com seres considerados exatamente como “anjos”. No Golfo da Guiné, o papel de guardião de portais e mensageiro é atribuído pelos povos Yoruba a Exu e aos seus arautos chamados de forma geral de Exus. Na Angola e Congo, estas atividades são muitas vezes atribuídas a Aluvaia e Pambu Njila (que tem relação com a corruptela mais recente “pomba-gira”). 

Encontram-se diversos exemplos na mitologia Africana de histórias sobre como Exu conseguiu o papel de guardião das portas de entrada e saída, e de como se deu o seu direito de receber alimentos primeiramente em todos os rituais. Estas explicações vão desde o seu papel como condutor universal de energias até estratégias de mostrar a fartura e benevolência de um deus ou rei pela suntuosidade de seu mensageiro ou guardião. 

Também pode ser observado que suas mensagens são bem diretas e sinceras; é preciso interpretá-las com exatidão, pois tudo que for plantado será colhido posteriormente pelo interlocutor. Observa-se um papel de “entregar as consequências” de atos individuais.

EGITO

No Egito, diversos seres têm o papel de mensageiros e guardiães. Os principais seres que possuem esta atuação podem ser derivados de algumas entidades do livro AmDuat, tendo participação importante na jornada de Rá pelo submundo desde o pôr do Sol até seu nascimento no dia seguinte. 

Assim como em vertentes anteriores, estes seres não possuem critérios de moralidade fixos, e seguem apenas a sua natureza e as suas funções cosmológicas. Porém alguns destes seres estariam mais alinhados com uma preservação da justiça e da verdade Maat, enquanto outros seriam mais representantes dos poderes caóticos Isfet. 

Suas formas podem ser diversas, desde escaravelhos até espíritos segurando facas, e que pelas suas descrições podemos entender um pouco melhor seu papel como guardiães universais. Eram muitas vezes desenhados nos sarcófagos para proteger o corpo de influências indesejadas.

LEVANTE

Na região do Levante, por volta de 2.500 AC, existem classes de seres que são descritas em conjunto com os deuses principais, porém parecem ter uma personalidade “coletiva” mais do que personalidades individuais. São seres com atuação importante, e que formam coletivos dependendo da sua função, por exemplo Anunakis (filhos de Anu e Ki, “deuses maiores”), Igigi (“deuses menores” que vigiam o mundo), Sebitti (juízes do submundo), Deuses em pé de Ekur (associados à germinação de plantas), Deuses sentados de Ekur (associados aos enterros e à putrefação). 

Apenas alguns de seus nomes são descritos na mitologia, permitindo entender que possuem maior importância do que todos os outros que não são citados. Por outro lado, aqueles que se encontram na mesma classe de seres, mesmo que não tenham seu nome citado, poderiam ser entendidos muito mais como divindades do que como meros “mensageiros”. Sendo assim, os limites entre deuses e seres auxiliares não ficam tão claros. 

Ao longo dos ciclos de morte e reprodução, deuses e demônios passaram a ter um caráter menos generalista e mais especializado. Antes, os grandes deuses e demônios eram criadores e destruidores de todo o universo por meio de todas as graças e elementos nocivos. Agora, cada um deles representava uma força primordial ou um aspecto divino. Cada companheiro de Marduk tinha uma função específica na tarefa de promover a civilização, e cada classe de mensageiros ou guardiães teria uma atuação especializada.

Mesmo se especializando cada vez mais, ainda não havia na Suméria, Acádia e Caldeia uma ideia de dualismo, com um Deus ou anjo específico correspondendo a cada Demônio. Embora houvesse heróis divinos, esperava-se que cada demônio assassinasse seu gêmeo. Estátuas da versão “benéfica” do demônio eram usadas para proteger-se contra a versão “maléfica” do mesmo. O Mas bom deveria combater o Mas mau, o Lamma bom combateria o Lamma mau, e o mesmo ocorria para Utuqs, Alapi e Nergalli.

YÁZIDIS

Os Yázidis são um grupo étnico existente pelo menos desde 1500 Antes de Cristo e que vive na região onde ficava a Mesopotâmia, tendo migrado para diversos outros países na forma de grupos menores. Sua religião, o Yazidismo, possui variantes locais, mas os conceitos básicos se mantêm e hoje incorporam diversos aspectos do Zoroastrismo e associações com o Islamismo (mesmo sendo supostamente anterior a estas vertentes). 

A principal crença do Yazidismo é a de que Deus haveria criado sete arcanjos nos sete dias da semana, que ficariam responsáveis por moldar o mundo e fornecer ao homem as partes de seu coro. Seu mestre é Melek Taus, o Pavão Cósmico, que incorpora o bem e o mal e não teria aceitado se curvar perante os humanos, mesmo tendo fornecido a eles o sopro da vida, ou a alma. Melek Taus também ensinou 72 línguas aos 72 filhos e às 72 filhas de Adão, que posteriormente fundaram os povos da Terra.

PÉRSIA

O Zoroastrismo foi fundado na Pérsia por Zoroastro ou Zaratustra por volta do ano 1400 Antes de Cristo, e engloba diversas associações e aprimoramento, principalmente indo-iranianos, desde então. Tem como principal mote a existência de um Deus benéfico chamado Ahura Mazda ou Ormuz, e um Deus maléfico chamado Angra Mainyu ou Ariman. Estes deuses não influenciam diretamente no Cosmos, e para isso contam com a ação de divindades específicas que incorporam suas diversas facetas.

No Zoroastrismo, os Amesha Spentas ou Amahraspands são os seres celestiais de maior poder, presidindo sobre aspectos gerais da natureza ou setores amplos da divisão energética do Cosmos; seriam análogos aos arcanjos.

Os Fravashis ou Arda Fravash seriam análogos a anjos-da-guarda, existindo individualmente para cada pessoa e presidindo sobre sua alma. É mencionado que após a morte os seres-humanos de boa índole se tornariam um só com seus Fravashis, como manifestação de sua Verdadeira Vontade ou Eu Superior. Protegem todos os seres humanos e animais da divindade maligna Druj, e geralmente são apresentados como um rei com asas e cauda de pássaro no lugar das pernas, sobreposto por um disco ou laço dourado.

Já os Yazatas ou Yazads são anjos mais gerais que regem aspectos da natureza, virtudes humanas ou elementos mentais e espirituais. Os Persas prestavam culto aos principais Yazads, que seriam os do sol, da lua e das estrelas, e geralmente seus nomes são simplesmente variações dos nomes dos aspectos que regem. Podem ter gênero feminino ou masculino dependendo das energias regidas, passivas ou ativas.

ISRAEL

Por volta de 600 AC, estima-se que tenha começado o processo de consolidação de textos que desembocou no livro do Êxodo, presente na Torá e também na Bíblia. Este livro conta a história da fuga dos hebreus do Egito, e esta narrativa foi utilizada posteriormente para montar instruções ritualísticas e também listas de anjos na Cabala. Em diversos outros livros sagrados judaicos de 600 a 200 AC também aparecem anjos com funções importantes, como Gabriel no livro de Daniel e Raphael no Livro de Tobit.
Segundo a Bíblia, Êxodo 14:19-21:

“E o anjo de Deus, que ia diante do exército de Israel, se retirou, e ia atrás deles; também a coluna de nuvem se retirou de diante deles, e se pôs atrás deles.

E ia entre o campo dos egípcios e o campo de Israel; e a nuvem era trevas para aqueles, e para estes clareava a noite; de maneira que em toda a noite não se aproximou um do outro.

Então Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e o Senhor fez retirar o mar por um forte vento oriental toda aquela noite; e o mar tornou-se em seco, e as águas foram partidas”.

Estes três versos narram o momento mais importante da fuga de Moisés e seus seguidores através do Mar Vermelho, que só foi possível mediante o apoio do poder de Deus, livrando os homens justos de seus inimigos. Cada um destes versos possui 72 sílabas na versão hebraica da bíblia, e selecionando-se uma de cada verso é possível obter os 72 nomes correspondentes aos anjos cabalísticos, também chamados espíritos benignos ou Shemhamphorash.

Cada um dos Shemhamphorash de número “N” tem seu nome formado pela sílaba “N” do versículo 19, a sílaba “73 menos N” do versículo 20, e a sílaba “N” do versículo 21. Ou seja, devem ser analisados os três versículos, em sua versão hebraica, percorrendo-se o primeiro e o terceiro na direção direta, e o segundo na direção inversa.

Os Shemhamphorash possuem graus zodiacais e signos associados a si, e de forma geral fazem parte de algum coro maior. A partir dos 12 nomes de Deus, que são formados por conjuntos de 3 dentre as 4 sílabas do Tetragrammaton, também é possível chegar em seus 72 nomes, apenas realizando-se aliterações internas. Assim, cada grupo de 6 anjos estaria contido em um dos 12 nomes “principais” de Deus. 

Na teoria Cabalística diz-se também que, no momento que a Torre de Babel foi destruída por Deus em punição à soberba dos homens, os trabalhadores foram divididos em 72 nações (algumas já não existentes em nosso tempo). Cada anjo, então, passou a se manifestar como uma faceta de Deus, adquirindo um “nome divino” ou um “santo nome” de Deus, e sendo adorado por um dos povos que se estabeleceram.

ORIENTE MÉDIO

Por volta do ano 600, quando teria vivido Maomé, começa a se delinear o que viria a ser chamado posteriormente de Islamismo, a partir das informações sobre os planos espirituais reveladas a Maomé por intermédio do arcanjo Gabriel (Jibril).
No Islamismo, os anjos podem ser entendidos como seres criados a partir da luz (enquanto os djinns são criados a partir do fogo e os humanos a partir da terra), mas também como representantes de conceitos abstratos e aspectos da mente humana. Possuem funções importantes no funcionamento do Cosmos, tanto relacionadas à exaltação dos merecedores quanto à punição dos ímpios. Outros anjos específicos podem ser criados a partir de outros elementos, como os anjos Hamalat al’Arsh que carregam o trono de Allah, os anjos-gêmeos de gelo e fogo Habib vistos por Maomé, e o anjo de fogo Iblis, responsável por punir os humanos no inferno.

A cosmologia islâmica também traz para dentro de sua estrutura alguns seres da mitologia Persa, os Peris, e os transforma em agentes mensageiros benevolentes. Eles teriam a aparência de belas mulheres com asas, aparecendo para dar recados aos humanos ou para alertar àqueles que estão fazendo algum mal ao ambiente.

CRISTIANISMO

De 500 AC até 500 DC, surgiu uma profusão de textos escritos sob inspiração divina que buscavam explicar os mistérios do universo e da divindade, com ou sem citações a seu filho humano. Os diferentes movimentos gnósticos, judaicos e proto-cristãos tinham suas formas próprias de ver o mundo, que muitas vezes se chocavam e contradiziam.

Os movimentos que saíram vitoriosos e que angariaram mais seguidores acabaram escolhendo os textos que fariam parte de seu cânon (a Bíblia), em relação ao velho e principalmente ao novo testamentos. São Jerônimo, no ano 500, cunhou o termo “apócrifo” para denominar os textos que supostamente não haviam sido escritos por inspiração divina, e que portanto ficaram de fora da Bíblia, mesmo que muitos deles não tenham contradições e sejam inclusive complementares aos livros escolhidos. 

Com base na Bíblia, muitos foram os livros escritos para expandir as explicações sobre como o universo funcionava, e sobre como funcionariam as hierarquias celestes, bem como os seres que ali viviam. O livro De Coelesti Hierarchia, publicado no século 5º pelo teólogo e filósofo Pseudo-Dionísio o Aeropagita, ou São Dionísio, descreve as Três Ordens e os Nove Coros de anjos; alguns livros posteriores definem ainda um líder angelical que rege cada Coro.

PRIMEIRA ORDEM

A Ordem mais próxima de Deus. Dela fazem parte os Serafins, os Querubins e os Tronos (ou Rodas).

Serafins: Keter – Plano Divino / Criador / Coroa
São os guardiões diante do trono de Deus, também conhecidos como “espíritos de fogo”. Geralmente retratados com seis asas e envoltos em chamas vermelhas e douradas, eles regem os céus e constantemente professam louvores a Deus. A graça de Deus flui através dos serafins para os anjos inferiores, dissipando as trevas e purificando o universo. Os Serafins são a mais alta ordem de anjos. Lúcifer teria feito parte desta Ordem, da qual era o anjo mais brilhante, antes de sua queda. São liderados por Metatron.

Querubins: Chokmah – Sabedoria / Revelação
Tendo o mesmo radical de Grifo, Kherub (asas), são uma classe de anjos representados como bebês com asas azuis, ou cabeças com asas. Originalmente, os querubins eram retratados com penas de pavão para simbolizar por meio dos múltiplos olhos seu caráter onisciente. São os cocheiros de Deus e portadores de seu trono. Na Bíblia, têm a função de guardar o caminho até a árvore da vida, no Éden. São liderados por Raziel.

Tronos: Binah – Compreensão / Razão
Também chamados de Rodas, são retratados como rodas aladas dentro de anéis, com as bordas cobertas de olhos, ou então como anéis concêntricos dispostos em diferentes planos formando um globo tridimensional. Eles suportam o Trono de Deus e decidem como as decisões de Deus devem ser manifestadas. Sua missão é trazer julgamentos para cada pessoa e também para a sociedade como um todo. São liderados por Tsaphkiel.

SEGUNDA ORDEM

Os sacerdotes e príncipes das cortes dos céus. Abarca os Domínios (ou Dominações), as Virtudes e os Poderes (Potências ou Potestades).

Domínios: Chesed – Misericórdia / Graça / Amor de Deus
Estes são os anjos que trazem os ensinamentos da intuição. São responsáveis por manifestar o poder e o domínio de Deus. Aparecem na forma humana usando uma coroa tríplice, e são representados com cetros e espadas para simbolizar o poder dado sobre toda a criação e a capacidade de decidir o que precisa ser feito para cumprir as necessidades de Deus. Também regulam os deveres dos anjos inferiores para garantir que o universo continue funcionando como deveria. Podem segurar uma cruz para simbolizar o equilíbrio entre as forças ativa e passiva. São liderados por Tsadkiel.

Virtudes: Geburah – Julgamento / Força / Determinação
São os anjos dos milagres, encorajamento e bênçãos, sendo representados como seres brilhantes de luz. Se envolvem sempre que as pessoas estão lutando com sua fé ou duvidando de si mesmas. Possuem quatro asas de penas azuis e usam uma armadura de guerra cintilante. Podem ser representados com cetros, lanças, machados, espadas e/ou escudos. Trabalham junto aos tronos para conceder graças e recompensas àqueles que superaram as dificuldades em suas vidas físicas. São liderados por Raphael.

Poderes: Tipharet – Simetria / Equilíbrio / Compaixão
Os Poderes têm a função de impedir que os anjos caídos dominem o mundo, mantendo o universo em equilíbrio. Também regem o poder do intelecto e da razão em assuntos como matemática, geometria, astronomia e outras ciências exatas, protegendo professores e educadores. São liderados por Camael.

TERCEIRA ORDEM

Aqueles que ministram para os humanos em nome de seus superiores. São os Príncipes (ou Principados), os Arcanjos e os Anjos.

Príncipes: Netzach – Contemplação / Iniciativa / Persistência
São protetores das religiões, e também funcionam como anjos de guarda das cidades, nações e governantes. Proveem forças aos povos para se manterem firmes e fiéis à sua nação. Vigiam as nações e tentam inspirar seus líderes a tomarem decisões sábias. São por vezes retratados vestindo roupas de soldados e sandálias, geralmente na forma humana. São liderados por Haniel.

Arcanjos: Hod – Rendição / Sinceridade / Firmeza
São os anjos “chefes”, e levam as mensagens de Deus para os humanos, também comandando os exércitos de anjos em constante batalha contra os “Filhos das Trevas”. Cuidam dos assuntos da humanidade e agem como anjos da guarda dos líderes dos movimentos mundiais. São os anjos que ficam a postos ao redor do trono de Deus, prontos para cumprir os decretos divinos principais sobre os humanos. São liderados por Mikael.

De acordo com o livro do Apocalipse, há sete arcanjos que estão na presença de Deus, mas apenas quatro são mencionados no Antigo Testamento: Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel. Na crença judaico-cristã, os outros três seriam Raguel, Jophiel e Chamuel. Porém, segundo outras fontes poderiam ser três dentre Ariel, Azrael, Camael, Haniel, Jeremiel, Metatron, Raziel, Sandalphon e Zadkiel. Cabe ressaltar que estes arcanjos também são citados, em outras fontes, como líderes de Ordens superiores. 

Anjos: Yesod – Fundação / Memória / Conhecimento
Seres celestes mais próximos aos humanos, são os intermediários entre Deus e os mortais para as funções mais corriqueiras. Lidam com os aspectos da vida cotidiana e atuam como veículo direto para informações, conhecimento e comunicações entre Deus e a humanidade, e vice-versa. Cada humano teria um anjo associado a si, ao nascer. Esses anjos são vistos com corpos humanos, asas e várias vestimentas diferentes, dependendo das tradições e da biblioteca simbólica do humano ao qual foram designados. São liderados por Gabriel.

EUROPA

Por volta de 480 DC, o Cristianismo se espalhou por toda a Europa. Os conceitos de angeologia estavam sendo definidos nos tratados que vinham sendo escritos, porém a demonologia evoluía constantemente e muito mais rápido. Isto porque, em cada nova região a ser dominada, a Igreja precisou criar um novo rol de demônios, que eram precisamente os deuses de cada povo que seriam paulatinamente apagados.

Além de transferir os poderes dos deuses antigos para Deus e seus anjos, a Igreja também começou a criar um conjunto de histórias sobre seres humanos que conseguiram a sua ascensão, se tornando santos. Sendo assim, a angeologia cristã em si permaneceu relativamente fixa, enquanto a lista de demônios e de santos só aumentava ao longo do tempo, em cada local por onde a Igreja passava.


A Historia dos Demônios

 


Ao longo da história, os conceitos de “bem”, “mal”, “deuses”, “anjos” e “demônios” muito se modificaram, variando entre regiões, culturas e vertentes mágicas, religiosas e científicas. Sendo assim, este texto irá explorar a evolução das definições de demônios e outros termos correlatos, explicando sua modificação ao longo das eras até se consolidarem na prática da Goécia como a conhecemos hoje.

O culto aos deuses começou, na maioria dos povos, na forma de um “culto a demônios”. As entidades cultuadas eram temidas, e por meio de oferendas e cerimônias poder-se-ia apaziguar a ira destes seres, conseguindo boas colheitas e outras benesses. Muitas vezes, as cerimônias incluíam sacrifícios até mesmo humanos. Os pais muitas vezes entregavam seus próprios filhos aos sacerdotes em prol de benefícios a toda a comunidade. Porém, com o tempo, começou a ganhar força a ideia de que os sacrifícios humanos poderiam ser substituídos por animais, e as cerimônias passaram a contar com imolação de animais vivos, oferendas de seu sangue e banquetes com sua carne. Na Bíblia, este conceito se apresenta por exemplo na substituição de Isaac por um cordeiro sobre a pedra sacrificial.

GOLFO DA GUINÉ

Na região africana do Golfo da Guiné, onde a humanidade surgiu segundo a maioria das teorias científicas atualmente aceitas, o conceito de “mal” estava relacionado aos aspectos primordiais do mundo. No quesito de potencial para causar efeitos nocivos aos humanos, mas sem estarem associadas ao conceito de “mal”, as Iyami Oxorongá cumpriam um papel importante ao representar este aspecto.

Estas feiticeiras eram as mães da magia, e foram suplantadas quando os Orixás chegaram ao Aiê para instituir a civilização humana. Assim, tomaram a forma de aves, principalmente aquelas de rapina, e passaram a viver no alto de árvores, de onde podiam enviar malefícios ou benefícios para as pessoas de cidades próximas. Em algumas versões, Nanã teria sido uma dessas forças primordiais, e responsável por criar os homens a partir do lodo primordial. Em outras versões, esta substituição de regência das Iyami pelos Orixás marca a evolução das sociedades Matriarcais para as Patriarcais.

EGITO

No Egito Antigo, desde as primeiras dinastias (~3.500 AC), Set representava as forças naturais relacionadas à destruição, na forma da seca, da lua minguante, do sol flamejante, da febre e do deserto. Ao mesmo tempo que assassinou Osíris, foi responsável pela evolução da sociedade, quebrando estruturas não mais úteis e ensinando a arte da guerra aos reis. Já Taweret era representada como um hipopótamo vestindo uma pele de crocodilo, ou então um animal híbrido entre os dois, e estava relacionada ao poder das águas e das bestas aquáticas do Nilo, podendo proteger contra Set. Tem similaridades em iconografia com a besta Amemit, devoradora das almas dos não merecedores. Sendo assim, observa-se que seres bestiais poderiam ser protetores, enquanto as forças da natureza poderiam ser personificadas na forma de entidades nocivas aos homens.

Além disso, por volta de 3 mil a 2 mil Antes de Cristo, a ideia do “bem” começou a se manifestar na forma de uma árvore, considerada a árvore da vida. Esta ideia pode ter sido Egípcia (aparecendo em alguns murais atacada por Apep) ou ter sido posteriormente levada ao Egito, mas de qualquer forma se fortaleceu na Assíria e na Babilônia, sendo representada ostensivamente. A Árvore da Vida era visada pelas forças do mal porque era responsável por prover alimento e vitalidade aos humanos, em alguns casos provendo também a imortalidade. A ideia foi mantida na Grécia com as maçãs das Hespérides e também nos povos nórdicos, com os frutos que proviam imortalidade aos deuses e a própria Yggdrasil. Na Bíblia, a Árvore foi localizada no centro do Éden, e na Cabala se tornou a estrutura central dos estudos.

LEVANTE

No próprio Egito e na região do Levante, por volta de 2.500 AC, o mal começou a ser entendido não só como as forças naturais nocivas em si, mas como as forças primordiais de um planeta violento que precisava ser domado e aplacado para que a sobrevivência humana ocorresse. Iniciaram-se os ciclos de mortes de deuses primais por deuses mais próximos dos humanos, em uma evolução gradual rumo à civilização.

Baal Marduk se apresentou, na Assíria, como o herói capaz de enfrentar o dragão primordial Tiamat, que era representado como um animal híbrido juntando partes de vários animais. O “mal”, então, não tinha juízo moral, era apenas primitivo e agia guiado por seus instintos.

Ao longo dos ciclos de morte e reprodução, deuses e demônios passaram a ter um caráter menos generalista e mais especializado. Antes, os grandes deuses e demônios eram criadores e destruidores de todo o universo por meio de todas as graças e elementos nocivos. Agora, cada um deles representava uma força primordial ou um aspecto divino. Os filhos de Tiamat utilizavam suas especialidades para vingar a mãe morta por Marduk, e os ventos que vinham de cada quadrante tomavam faces diferentes correspondentes a demônios específicos (por exemplo Pazuzu, vento Sudoeste que trazia tempestades).

Mesmo se especializando cada vez mais, ainda não havia na Suméria, Acádia e Caldeia uma ideia de dualismo, com um Deus ou anjo específico correspondendo a cada Demônio. Embora houvesse heróis divinos, esperava-se que cada demônio assassinasse seu gêmeo. Estátuas da versão “benéfica” do demônio eram usadas para proteger-se contra a versão “maléfica” do mesmo. O Mas bom deveria combater o Mas mau, o Lamma bom combateria o Lamma mau, e o mesmo ocorria para Utuqs, Alapi e Nergalli.

Na Pérsia, por sua vez, se estabeleceu o mais simétrico dualismo, com uma corte celeste e um império demoníaco se contrapondo em estrutura e qualidades. O Rei Persa ou Ahura Mazda eram representados lutando contra um demônio primordial na forma de unicórnio, semelhante a Tiamat. Anjos ou Fravashis eram representados lutando contra daêvas ou demônios que regiam o lado negativo de cada aspecto.

NA TORÁ

Por volta de 1.000 AC, os primeiros hebreus tinham diversas leis proibindo bruxas e magos (Êxodo 22, Levítico 20), pois o verdadeiro poder somente poderia vir do Deus verdadeiro, Yahweh. Porém, em tempos difíceis, não faltam relatos sobre israelitas procurando a ajuda de feiticeiros. Um dos relatos mais famosos se encontra também na Bíblia, quando Saul — após ter mandado matar todas as bruxas da região — recorreu à Bruxa de Endor para pedir conselhos ao espírito de Samuel, já falecido (1 Samuel 28).

Na Torá há muitos relatos sobre demônios espreitando em locais escuros. Na mitologia hebraica, temos por exemplo os Seirim (demônios-quimera ou bodes), os Shedim (outros demônios) e Lilith (a primeira esposa de Adão). Na Bíblia, exemplos podem ser encontrados em Levítico 17, Deuteronômio 30 e 32, 2 Crônicas 11, Isaías 13 e 34, Salmos 106.

Como o poder mágico era monopólio de um único Deus verdadeiro, os deuses de outras culturas foram considerados deuses falsos ou demônios, e seus poderes seriam meros simulacros de um poder que almejavam — mas nunca conseguiriam — possuir. Porém, devido ao seu uso em rituais ou proteção contra os mesmos, esses demônios foram compilados e muito bem descritos em livros e grimórios. Passaram a ser usados com o aval do poder de Deus, pois estariam cumprindo os desígnios Dele, como meras ferramentas. Este fato permitiu que fossem conhecidos no mundo contemporâneo, e fez com que suas histórias pudessem ser conhecidas mesmo após a destruição de seus cultos originais.

Aos poucos, o mito de Marduk e Tiamat foi se tornando uma lembrança cada vez mais esquecida, e tomando outras formas na Mitologia Hebraica. O combate entre o Deus primordial e o dragão demoníaco continuava sendo citado, mas o próprio conceito de Deus havia evoluído bastante. No antigo testamento, a batalha entre Deus e o Dragão é citada em várias instâncias e apresenta vários heróis e monstros (Leviatã, Rahab, Behemoth) repetindo o ciclo, porém o primeiro combate em si não é citado. Nas citações ao episódio, era pressuposto que todos já o conheciam, de forma que não se pensou necessário narrá-lo por escrito.

ÍNDIA

Nem sempre a serpente foi considerada símbolo do mal e dos demônios. No hinduísmo principalmente, desde ~4.000 AC mas com simbolismo fortalecendo-se em ~2.000 AC, era tida como o símbolo da eternidade e dos ciclos do tempo. A serpente Ananta é um exemplo deste conceito, e permitia que Vishnu flutuasse sobre a substância ainda não diferenciada que viria a formar o Universo. Esta serpente, também chamada Vasuki, era representada em outros casos enrolada no Pilar Universal, uma coluna erigida sobre o casco da tartaruga cósmica Kurm, um avatar de Vishnu.

Na cultura indiana, observa-se que a existência de demônios era algo aceito e até mesmo visto como necessário para a manutenção da tensão que movimenta o Cosmos. Porém a maioria dos demônios devia servir aos poderes divinos — e inclusive ser devota aos deuses -, causando destruição ou rupturas apenas quando permitido pelo plano cósmico. Um exemplo pode ser encontrado nas histórias de quando dois irmãos demônios foram destruídos por Vishnu ao irem contra as leis sagradas. Hiranya-Ksha ameaçou destruir o mundo inteiro, e Vishnu o matou com suas presas incorporando seu avatar de Javali. O irmão do demônio, Hiranya-Kasipu, zombou da onipresença de Vishnu, duvidando que ele pudesse estar em todos os lugares, por exemplo em uma coluna de pedra. Vishnu saiu de dentro da coluna na forma de um leão monstruoso e estraçalhou o demônio.

Além dos demônios propriamente ditos, diversas divindades hindu estão relacionadas com quebras, revolução e destruição como parte de uma criação vibrante e cíclica. Talvez a principal representante deste poder renovador, Kali é representada pisando no ego de seu esposo e destruindo com uma mão enquanto cria com a outra. No budismo tibetano, era representada como o demônio mKha’sGroma.

JAPÃO E CHINA

No Japão e na China, por volta de 600 DC, os demônios eram vistos como personificações das catástrofes naturais ou das forças da natureza que ainda não podiam ser mitigadas. O demônio do trovão, por exemplo, também poderia trazer outros males súbitos, como doenças, acidentes, terremotos e desmoronamentos. Demônios eram vistos como o imprevisto que rondava a vila para atingir os desavisados.

No imaginário Japonês e Chinês, também reinava a noção de que os demônios eram responsáveis pelo julgamento pós-morte, acusando o morto e solicitando que se retratasse pelo que fez em vida. O tribunal do Meifu era a representação do julgamento da alma (retomando então o conceito egípcio), onde o morto deveria assistir aos seus feitos em um espelho que mostrava toda a sua vida. Os demônios do tribunal Meifu eram conhecidos pela sua função no julgamento pós-morte. Kongo era o xerife, Emma o juiz, e os demônios Gozu (com cabeça de veado) e Mezu (com cabeça de cavalo) faziam parte do grupo de executores e torturadores. Caso as ações boas do morto prevalecessem, ele reencarnaria em um estado mais elevado de existência. Caso as más ações fossem mais relevantes, deveria reencarnar como o animal que representasse seu caráter. Caso tivesse sido demasiadamente cruel, seria torturado até a expiação total de seus pecados.

NO BUDISMO

No Tibet, em cerca de 650 DC, começou a se delinear o conceito de que os demônios seriam aspectos psicológicos que impedem a evolução e a transcendência individual, por vezes personificados na forma de um ser que traz tentações e dúvidas.

O demônio Mara segura a roda do Samsara, e em seu centro estão os elementos que prendem os homens no ciclo eterno de reencarnações: paixão, pecado e preguiça. Ao seu redor, estão os 12 elementos que ocorrem na vida de cada pessoa: ignorância, repetições, senciência, personalidade, sentidos, sensações, sentimento, desejo, obsessão, aceitação, reprodução, morte.

Quando Buddha estava próximo à sua iluminação, o demônio Mara aparece com seu exército de demônios para tentar fazê-lo desistir da jornada que iniciara há 7 anos. Estes demônios representam tentações que podem impedir a evolução pessoal, e são luxúria, descontentamento, fome e sede, desejo, preguiça, covardia, dúvida, hipocrisia e soberba. Se entregar a eles não traz sofrimento, mas sim prazer e felicidade; e estes prazeres podem impedir a transcendência caso sejam excessivos, por serem estritamente físicos e passageiros.

GRÉCIA

Antes da chegada dos ideais cristãos à sua Terra, por volta de 1.000 AC, os Gregos e outros povos próximos como os Etruscos já possuíam um conceito bem detalhado do que seria o Submundo. O conceito de Hades e Tártaro, e também do submundo Etrusco onde o demônio Tuchulcha atormentava as almas, se mesclaram ao inferno cristão e ao Sheol judaico para formar a concepção usada em Roma.

As almas humanas se tornariam Eidolons ou meros ecos no Hades, enquanto as almas de heróis (como Hércules) poderiam se dividir entre uma vida no Olimpo e uma no Hades como sombras. Outros heróis como Menelau poderiam viver em Elysion (similar ao Paraíso), comandado por Radamantis — que mostra a forte influência egípcia pela sua origem Ra Amentis, Rá que rege o Amenti (submundo). O próprio mito de Tifão em muito lembra o da cobra Apep.

Com o passar dos ciclos escatológicos, assim como ocorre em outras culturas, os deuses dos povos da península itálica evoluem, se tornando mais próximos dos seres-humanos. Surge o arquétipo do herói salvador, e este herói se torna cada vez mais um humano comum, e até mesmo humilde, com grandes habilidades. Os demônios também se humanizam, passando a ser monstros parcialmente humanos, híbridos entre diversos animais, ou perigos cotidianos enfrentados pelos heróis para salvar seu povo.

O arquétipo do herói solar se apresenta em várias instâncias durante a miscigenação das religiões próximo a Roma. Hércules, Perseu, Belerofonte, Baal Merkath (da Tíria), Bel (da Babilônia), o herói de Khorsabad, Jesus, Mitra, passam por histórias parecidas com extremo caráter solar. Alguns deles até mesmo enfrentam 12 trabalhos ou provações que se relacionam com os 12 signos na passagem do Sol pelos céus, incluindo a morte e o renascimento. Os heróis solares humanizados conseguem salvar a humanidade, e se sacrificam por ela.

Em alguns casos, devido a seus feitos, acabam sendo punidos pelos deuses. Prometeu traz o fogo aos homens, e por isso é aprisionado em uma pedra. Em outras versões do mito, como a retratada no Vaso de Chiusi, Prometeu é amarrado a um mastro ou então crucificado.

ORIENTE MÉDIO

No Oriente Médio, de 200 AC ao ano 0, diversos sistemas de crenças tiveram intercâmbios importantes entre si que refletiam os próprios intercâmbios de mercadoria e as miscigenações do povo que ali vivia. Os judeus ficaram familiares com as culturas Assíria, Babilônia e Persa, e muito assimilaram em suas crenças. O dualismo persa foi em grande parte levado em conta, com uma estrutura infernal mimetizando a estrutura celeste, e mesmo com algumas entidades sendo trazidas para dentro de seu sistema de crenças. Na história de Tobit, por exemplo, Asmodeu (o Aeshma Daeva persa, ou Espírito da Ira) se apaixona por uma mulher, e no Talmude ele se converte no demônio da luxúria.

Por volta do ano 0, se delinearam fortemente os ideais gnósticos de um deísmo trino baseado em Pai, Filho e Espírito Santo — este último por vezes representado como Sofia ou como a Mãe, ecoando as tríades egípcias (ex: Ísis, Osíris e Hórus). A salvação pessoal viria pela transcendência individual, como no budismo, ou pela evolução coletiva, pela vinda do Messias. Vários sectos gnósticos se proliferaram no Oriente Médio, como os Sabianos ou Batistas, os Essenos, os Ebionitas, e outros grupos como os Fariseus e os Saduceus. Um dos grupos gnósticos mais conhecidos foi o dos Nazarenos, de onde veio Jesus.

Para os Gnósticos, a trindade era composta por Deus Pai, Deus Filho e Deus Mãe (a sabedoria ou Sophia). Sophia seria a esposa cósmica de Deus, também chamada de Pneuma ou Logos. Este conceito é similar ao do Budismo, em que a trindade é representada pelo Buddha ao lado do Dharma (ciclos) e do Sangha (comunidade). O próprio termo Sophia pode ser uma tradução de Bodhi, a iluminação do Budismo.

Por volta de 1600, já em um contexto de “neo-gnosticismo”, o filósofo Jacob Böhme escreveu o livro Os Três Princípios, que foi publicado quase cem anos depois, após a sua morte. Neste livro, Böhme descreve como o Bem e o Mal se desenrolam no Tempo, e argumenta que esta seria a trindade necessária para a existência do Universo. Deus seria a união do Bem e do Mal, na forma do Todo, e ao tentar se manifestar acabaria sempre gerando estas duas qualidades em um terceiro domínio, o Universo, regido pelo Tempo. O conceito de pecado, para Böhme, seria alguém se prender ao mundo material, interpretando ao pé da letra as escrituras e focando apenas no que é tangível. A verdadeira salvação seria alcançada mergulhando nas escrituras e entendendo o sentido metafísico por trás delas, recorrendo à Bíblia como um conjunto de metáforas para explicar o Cosmos.

ROMA

Mitra é uma divindade solar persa cujo culto se estendeu a várias regiões incluindo Roma, em cerca de 300 DC. Embora a versão bíblica e religiosa de Jesus tenha relação com a de vários outros heróis e deuses do Oriente Médio, Europa e Ásia, as associações a Mitra acabam sendo mais diretas, até mesmo pelo fato de muitas delas serem propositais.

O Mitraísmo incluía batismos, a reencenação da morte de um touro para remissão dos pecados, e uma cerimônia de nascimento do Sol realizada no dia 25 de dezembro. São Crisóstomo, pioneiro no estabelecimento do Cristianismo, cita em um de seus discursos que o dia de Mitra foi escolhido para a comemoração do nascimento de Cristo porque os cristãos teriam mais paz para realizar suas cerimônias enquanto os romanos estivessem comemorando o nascimento do Deus Sol.

Æon ou Zrvan Akarana (que significa tempo ilimitado) é um Deus primordial no Mitraísmo representante do Caos Primordial. Carregando uma chave, uma tocha e um bastão de medição, com corpo de homem e cabeça de leão, é o estado primordial de existência a partir do qual Ahura Mazda nasce. A cobra enrolada em suas pernas representa as revoluções do tempo e também a impossibilidade de se mover, pois tudo se cancela e retorna ao mesmo ponto. As quatro asas representam as quatro estações e a onipresença. Também está associado a Hefesto, Esculápio, Hermes e Dionísio, todos em um, conforme símbolos aos seus pés. Para alguns pesquisadores, era representante do conceito de demônio, um pai tirano que não permite movimento algum, a imobilidade fervilhante do Caos.

Abraxas, também presente em Roma, significa “aquele a ser adorado”, e era representado como uma versão de Esculápio com cabeça de galo ou plumas de galo na cabeça. O Agathodaemon (Espírito bom) era uma entidade originalmente fenícia com corpo de serpente e cabeça de águia, galo ou Leão. Representava a vida longa e era desenhado em amuletos contra doenças e para proteção. Já Iao era um Deus com cabeça de galo que se movia rapidamente e era onipresente, por isso suas pernas eram representadas como serpentes, símbolos da gnose e da rapidez do pensamento. Essas três entidades, Abraxas, Agathodaemon e Iao, chegaram a ser igualadas ou associadas entre si pelos gnósticos, o que explica suas simbologias similares, e se tornaram patronos da saúde, da sabedoria secreta, dos mistérios e da magia. Podem também ser associadas na Goécia ao Daemon Decarabia.

Serapis, uma forma helenizada de Osíris-Ápis, era representada de forma similar ao Æon do Mitraísmo, e seu símbolo principal era uma cruz. Do culto de Serapis, que buscava remontar aos mistérios de Osíris sob uma roupagem mais Helênica, saíram as inspirações para os monastérios Cristãos que viriam a se instalar no Egito e depois em Roma. O próprio Imperador Adriano de Roma chegou a se referir aos adoradores de Serapis como Cristãos ou Bispos de Cristo, dados o intercâmbio e o sincretismo entre os cultos que já se encontravam em estado avançado em sua época.

MANUSCRITOS APÓCRIFOS

De 500 AC até 500 DC, surgiu uma profusão de textos escritos sob inspiração divina que buscavam explicar os mistérios do universo e da divindade, com ou sem citações a seu filho humano. Os diferentes movimentos gnósticos, judaicos e proto-cristãos tinham suas formas próprias de ver o mundo, que muitas vezes se chocavam e contradiziam.

Os movimentos que saíram vitoriosos e que angariaram mais seguidores acabaram escolhendo os textos que fariam parte de seu cânon (a Bíblia), em relação ao velho e principalmente ao novo testamentos. São Jerônimo, no ano 500, cunhou o termo “apócrifo” para denominar os textos que supostamente não haviam sido escritos por inspiração divina, e que portanto ficaram de fora da Bíblia, mesmo que muitos deles não tenham contradições e sejam inclusive complementares aos livros escolhidos. Em 1 Reis, por exemplo, é citado o “Livro dos Atos de Salomão”, que seria apócrifo, e as epístolas de Judas citam acontecimentos relacionados a Enoque que somente constam nos apócrifos “Livros de Enoque”.

No Evangelho de Nicodemos ou Atos de Pilatos, manuscrito apócrifo escrito entre 150 d.C. e 400 d.C., é narrada a descida de Jesus ao inferno para salvar as almas atormentadas injustamente por lá. O texto começa com uma conversa longa entre Belzebu (Príncipe do inferno) e Satã (Rei do inferno) sobre um suposto filho de Deus que havia nascido na Terra e prometido descer até seus domínios. Ao chegar nos portões do inferno e abri-los facilmente com luz e poder, Jesus explica aos atormentados que seu sofrimento é causado pela sua própria mente. O inferno seria um lugar de prisão apenas para quem considera que pecou, e a libertação se daria pela ressignificação do conceito de pecado, eliminando a culpa acumulada sobre suas ações em vida. Os Santos se libertam de suas próprias prisões mentais, e seguem Jesus, conquistando a Morte.

O apocalipse de São Pedro, outro livro apócrifo do ano 200 DC, descreve o céu e o inferno como lugares físicos, sendo que o céu é um jardim eterno com flores, árvores frutíferas, e uma luz indescritível. Já o inferno é descrito com maiores detalhes, sendo escuro e desesperador. Blasfemos são pendurados pelas línguas sobre o fogo, injustos são imersos em areia escaldante e perfurados por anjos negros, adúlteras penduradas sobre o fogo por suas tranças, e seus amantes com a cabeça enterrada em areia quente. Fetos abortados soltam raios que atingem os olhos das mães que os abortaram, enquanto elas ficam em uma piscina de sangue.

O livro Apócrifo Pistis Sophia, escrito por volta de 300 DC, narra algumas questões de Maria sobre o Universo que são respondidas por Jesus. Também chamado “As Questões de Maria”, é um dos livros-base do gnosticismo. O inferno é descrito no Pistis Sophia como um dragão que cerca o mundo e come seu próprio rabo. Dentro do Dragão existem 12 masmorras de tormento eterno, onde reinam absolutos 12 demônios. Cada um dos demônios tem um nome a cada hora, e muda de aparência a cada hora do dia.

CRISTIANISMO

Os atos atribuídos a Jesus nas primeiras escrituras compiladas levam a crer que ele compartilhava do senso comum das pessoas da época, ao entender o demônio como o conjunto de tentações, imoralidades e mesmo doenças (principalmente as psiquiátricas) que afligiam as pessoas. Também levam a crer que os acontecimentos da vida do Jesus histórico (que viveu de 7–2 AC até 30–33 DC) foram mesclados com mitologias diversas que falavam de Bem e Mal e cujas informações tinham chegado até então na Região do Oriente Médio.
Na descrição bíblica, Jesus foi tentado pelo diabo (assim como Buddha por Mara), e as falas de Jesus refletem um pensamento de que a vida após a morte seguiria uma lógica de compensação, e não propriamente de recompensa ou punição por boas e más ações. Por trás da moral incutida no relato, entende-se que seria natural Lázaro viver uma pós-vida plena apenas pelo fato de ter vivido em sofrimento, e o Rico viver a pós-vida no inferno apenas por já ter recebido benesses em vida.

Já no que toca à dominação do Cristianismo sobre outras vertentes religiosas, a Revelação de São João ou Apocalipse de João, escrita entre 68 e 70 DC, foi um dos livros escolhidos para estar na Bíblia e que permite entender as relações de poder entre os grupos da época. No texto, são descritos alguns apóstolos que não seriam realmente inspirados por Deus (ou seja, falsos profetas), como os Nicolaítas e os da cidade de Tiatira, enquanto o próprio João e seus seguidores seriam escolhidos para partilhar das maravilhas do paraíso. Outras visões sobre o Paraíso e o Inferno eram perigosas para o estabelecimento da nova religião única, e podem ser encontrados nos apócrifos Livro de Enoque, Evangelho de Nicodemos, As Questões de Maria, entre outros citados anteriormente.

O apocalipse de São João mostra em seus meandros o ideal de conquista e de dominação que havia por parte de seu grupo. É explicitado que quem guardasse os trabalhos de Cristo até o final — isto é, ele e seus seguidores, mas não os “falsos apóstolos” — teria o poder sobre as nações. Com o segundo advento de Cristo, supostamente anunciado pela queima de Roma por Nero (nome somando 666) em sua própria época, João poderia destruir as religiões que considerava falsas, e isto incluiria obviamente as de inspiração Babilônia e Suméria, assim como os adoradores de outros deuses e heróis como Baal, Marduk, Astarte, Moloch, Belial, etc.

No Apocalipse de João, o cordeiro rompe os 7 selos, e 4 cavaleiros do apocalipse são soltos, carregando uma coroa, uma espada, uma balança e a própria morte, seguidos pelo inferno. O Sol se torna negro, a Lua se torna vermelha, e os mártires recebem túnicas brancas. Um anjo anuncia 3 vezes, e 4 anjos que haviam sido presos (possivelmente os mesmos do Livro de Enoque) são soltos para matar 1/3 dos homens. Uma mulher prestes a dar à luz luta contra o dragão que aguarda para devorar seu filho. A velha cidade Babilônia, mãe das abominações, monta uma besta de 7 cabeças e traz seus filhos demônios para comer a carne dos mortos. Satã é preso por 1.000 anos e libertado de novo, quando então Gog e Magog são conquistados, e Jerusalém Celeste desce sobre a Terra. Então, 12 tribos passam a viver na cidade, e Deus é a luz em seu centro.

Já por volta de 400 DC, Santo Agostinho reformulou o cristianismo negando a existência do mal como um conceito independente, e associando-o mais fortemente ao pecado original cometido por Adão e Eva. Jesus teria o condão de salvar todos os humanos desse pecado, desde que eles se arrependam. Assim, a entidade “diabo” continuou existindo como tudo o que desvia o homem da real iluminação (ou seja, todos os inimigos da Igreja), nos moldes de Mara, do Budismo. Os Santos eram as pessoas que conseguiam resistir a estas tentações, ou mesmo destruir o adversário, e performar milagres usando os poderes atribuídos a eles por Deus.

Nos anos que se seguiram, para angariar mais seguidores, a Igreja começou a compilar histórias de Santos que eram baseadas em mitologias locais por onde passava. Esta tarefa foi simples, uma vez que as mitologias mais populares se baseavam em Arquétipos simples ou eficazes, quase universais, ou mesmo haviam sido baseadas umas nas outras e mescladas por meio de migrações, conquistas e sincretismos. Sendo assim, a estrutura do mito já estava pronta, bastando escolherem-se personalidades reais de cada país para serem encaixadas ali. São Jorge é um exemplo interessante pois se encaixa em um número estonteante de lendas, por exemplo Baal-Marduk contra Tiamat, Miguel contra o Dragão, Indra contra Vritra, Sigurd contra Fafnir, Rá contra Apep, e em todos os mitos que falam de entidades humanizadas (ordem) contra uma entidade bestial (caos). A história real dos santos, porém, nem sempre é digna de mitos, levando em conta que Jorge havia sido um arcebispo da Alexandria com um histórico tirano, a ponto de ter sido deposto e preso no ano 361 D.C, e morto em 362.

Enquanto as funções mais mundanas, como trazer a ordem ao povo, foram distribuídas entre os Santos, os anjos ganharam funções mais espirituais que outros povos atribuíam às suas divindades. O papel de pesar as almas e julgá-las, por exemplo, seria realizado pelo anjo Miguel no fim dos tempos. Esta atribuição era de Anúbis, por excelência, no Egito, e realizada pelo tribunal Meifu no Japão. O Arcanjo Miguel também foi encaixado em mitos de derrota do dragão, mas em um contexto mais definitivo, no Fim dos Tempos. Assim como Thor contra Jormungand no Ragnarok e Zeus contra Tifão na gigantomaquia, o anjo seria o responsável pela vitória absoluta contra o mal.

EUROPA

Por volta de 480 DC, o Cristianismo se espalhou por toda a Europa. Além de ser temido, o diabo passou a ser ridicularizado em histórias onde a inteligência humana prevalecia sobre sua malícia. Assim como nas histórias Nórdicas, os humanos, santos e deuses conseguiam favores e riquezas dos demônios (ou gigantes) com base em sua lábia e astúcia. As peças de teatro apresentavam demônios como seres facilmente enganáveis, e cada peça geralmente tinha 4 diabos com personalidades distintas, daí a expressão “fazer o diabo a quatro” como significando enganar ou maltratar de forma magistral uma pessoa.

Assim como os Gigantes Nórdicos, o Diabo pedia sacrifícios em troca de deixar os humanos em paz. Ele poderia, também, ser enganado para ajudar os humanos, pois tinha poderes inesgotáveis e muito úteis. Uma das histórias conta que um pastor pediu ao diabo para construir uma ponte nova, pois a ponte que costumava atravessar com seus cabritos estava correndo o risco de cair. O diabo construiu uma ponte nova em cima da ponte antiga, e em troca iria levar a primeira alma que passasse sobre a ponte. Porém, o pastor enviou um cabrito sozinho sobre a ponte, e o diabo estraçalhou o animal, de tanto ódio que sentiu por ter sido enganado.

Em outro conto onde o diabo é ridicularizado, fala-se de um fazendeiro que não conseguia ter boas colheitas. Ele então fez um pacto com o diabo e pediu pela fertilidade de suas terras, mas o diabo disse que só aceitaria o pacto se pudesse ficar com metade da colheita a cada ano. O fazendeiro poderia, porém, escolher a metade que queria. Dito e feito. No ano em que plantava mandioca, o fazendeiro deixava a metade de cima das plantas para o diabo. No ano em que plantava trigo, deixava para o demônio a metade de baixo.

Mesmo acreditando em um Deus Único, as religiões hebraico-cristãs sempre acreditaram no poder da magia. Por isso mesmo tiveram que reconhecer e categorizar os atos mágicos feitos pelos outros povos como algo negativo, e por seus próprios adeptos como algo positivo. Assim, a inquisição que ocorreu desde os anos 1100 até cerca de 1700 foi ao mesmo tempo uma tentativa de perseguir todos aqueles que, de uma forma ou de outra, desafiavam os dogmas da igreja (imputando-lhes culpa mesmo quando não houvesse), como também foi um reconhecimento público de que a magia, mesmo quando feita sem licença divina, tinha potencial transformador, e por isso deveria ser combatida.

Enquanto a magia dos outros era herética e pecadora, a magia realizada por homens que faziam parte da egrégora dominante era chamada de “milagre”. Neste sentido, os mesmos atos realizados por bruxas e que poderiam levá-las à fogueira foram feitos sem problema por homens da igreja. Papas e padres tinham seus grimórios, e a atuação de demônios era aceitável desde que se dissesse que haviam sido compelidos pelo poder de Deus. O homem, com a ajuda de Deus, poderia comandar demônios e pedir a eles que fizessem tarefas, sem correr o risco de ser tachado como herege ou queimado como bruxo.

NÓRDICOS

O Conceito do Mal para os povos Nórdicos na Era Viking (~800 DC), assim como em vários outros povos, era o das forças primordiais, personificadas principalmente na forma de Hel ou Hela e seus irmãos. Estes três seres eram filhos de Loki, o Trickster — que representava, acima de tudo, o livre-arbítrio, metaforicamente sendo a origem do mal. Hela era uma mulher metade morta, e cuidava da Terra dos mortos. A serpente Jormungand ficava ao redor do mundo (Midgard), e o Lobo Fenrir foi aprisionado em correntes inquebráveis dentro de uma caverna.

O Ragnarok é uma passagem da mitologia nórdica bastante enigmática, uma vez que contém elementos do Dilúvio e também do Apocalipse cristãos, e pode ter sido adaptada já sob influência da Igreja (nas Eddas Poéticas de ~1300 DC) para explicar a passagem do politeísmo para o monoteísmo. Nesta passagem, a volta de Baldur, Deus da luz e da pureza, inicia uma reviravolta cósmica. Os filhos de Loki e os gigantes de Gelo (de Jotunheim) e de Fogo (de Muspelheim) lutam contra os deuses e Surt queima a árvore da vida Yggdrasil com sua espada flamejante. O fogo faz o céu derreter e inundar a Terra, mas dois seres humanos sobrevivem em uma caverna ou dentro da casca da própria Árvore, assim como Baldur. Os sobreviventes reconstroem o mundo, e Baldur passa a ser seu Deus único.

Da mesma forma que a cultura Nórdica foi influenciada pela Igreja, a figura do Diabo no cristianismo foi muito influenciada pela cultura Nórdica. Sua figura era associada ora aos gigantes de fogo de Muspelheim, ora aos gigantes de gelo de Jotunheim. No inferno de Dante, o último círculo do inferno (inferus, inferior) é feito de gelo, e a palavra “Hell” é deliberadamente adaptada de Hel, o reino dos mortos na Yggdrasil. O diabo é novamente entendido como aquele que comanda os terrenos e tem controle sobre eventos primordiais como vulcões e terremotos — assim como os gigantes.

Assim como os gigantes Nórdicos, o diabo poderia solicitar oferendas para não destruir construções humanas. Por isso, muitas vezes eram sacrificadas pessoas na fundação de muralhas e de torres, acreditando-se que os sacrifícios garantiriam sua integridade. Os corpos enterrados nos alicerces da cidade eram o imposto a se pagar para as forças da natureza. Esta prática era tão comum que foi tida como aceitável pelo Deus de Israel, como pode ser lido em 1 Reis 16:34: “Em seus dias Hiel, o betelita, edificou Jericó. Quando lançou os seus alicerces, morreu-lhe Abirão, seu primogênito; e quando colocou as suas portas, morreu-lhe Segube, seu filho mais moço; conforme a palavra do Senhor, que ele falara por intermédio de Josué, filho de Num”.

Referências: Paul Carus — The History of the Devil; Skinner & Rankine — The Goetia of Dr. Rudd.


Taumaturgia

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